Você recebeu o diagnóstico e já está em tratamento do glaucoma, mas surgiu a dúvida: “preciso fazer laser?” ou “vou ter que operar?”. Essa decisão não é automática e quase nunca depende de um único número (como a pressão do olho). Em geral, o oftalmologista considera o tipo de glaucoma, o quanto o nervo óptico já foi afetado, os exames (campo visual, OCT), a resposta aos colírios e o risco de progressão.
Como a perda visual pelo glaucoma é, em regra, irreversível, o objetivo do tratamento é reduzir a pressão intraocular o suficiente para tentar frear a doença e preservar visão funcional. Esse “alvo” varia de pessoa para pessoa e pode mudar com o tempo. Por isso, faz sentido revisar a estratégia antes de aceitar um procedimento.
Tratamento do glaucoma: o que define a próxima etapa
O glaucoma não é uma doença “de uma receita só”. O mesmo laudo pode levar a condutas diferentes conforme sintomas, adesão aos colírios, espessura da córnea, estágio do campo visual e achados do nervo óptico.
De acordo com o PCDT do Glaucoma do Ministério da Saúde, o cuidado costuma envolver acompanhamento especializado e estratégias para controle da doença, com decisões individualizadas e baseadas em critérios clínicos e de exames (documento do Ministério da Saúde/Conitec).
Na prática, seu médico pode propor “subir” etapas quando:
- a pressão segue acima da meta apesar do tratamento;
- há sinais de progressão no campo visual ou no OCT (mesmo com pressão “boa”);
- os colírios causam efeitos adversos importantes;
- a rotina não permite usar as medicações como prescrito (aderência baixa);
- existe contraindicação a certos colírios.
Colírios, laser e cirurgia: não é uma escada rígida
Muita gente imagina uma ordem fixa: colírio → laser → cirurgia. Mas a escolha pode variar.
Em termos gerais, diretrizes e revisões apontam que reduzir a pressão é a única estratégia com benefício comprovado para diminuir o risco de progressão no glaucoma, e isso pode ser feito com colírios, laser ou cirurgia, conforme o caso (visão geral em EyeWiki/AAO sobre glaucoma de ângulo aberto).
Além disso, em alguns cenários, o laser trabeculoplastia seletiva (SLT) pode ser usado como opção inicial ou como complemento, a depender do tipo de glaucoma e das características do paciente (resumo em EyeWiki/AAO sobre glaucoma intervencionista).
Quando o laser (SLT) costuma entrar na conversa
O SLT é um procedimento feito no consultório/hospital-dia, com o objetivo de melhorar a drenagem do humor aquoso e reduzir a pressão. Ele não “cura” o glaucoma, e o efeito pode variar e, em alguns casos, diminuir ao longo do tempo.
O laser costuma ser considerado quando:
- há dificuldade em manter vários colírios no dia a dia;
- existe intolerância a colírios (ardor, alergia, olho vermelho persistente);
- a pressão não chegou à meta com a estratégia atual;
- o médico quer reduzir a quantidade de colírios sem perder controle.
Uma dúvida comum é: “Se eu fizer laser, paro todos os colírios?”. Às vezes dá para reduzir, mas não é garantido. O planejamento deve considerar seu histórico, exames e metas de pressão.
Quando a cirurgia pode ser indicada — e o que revisar antes
A palavra “cirurgia” assusta, mas existem diferentes técnicas, com perfis de risco e objetivos distintos. Em geral, cirurgia é discutida quando há progressão apesar do tratamento clínico/laser, quando a pressão precisa cair mais do que as alternativas conseguem, ou quando a doença já está em estágio em que o médico entende que a janela de segurança é pequena.
Uma atualização importante para o cenário brasileiro: segundo notícia oficial do Ministério da Saúde, o SUS passou a incorporar uma técnica cirúrgica para tratar glaucoma e catarata na mesma intervenção em casos selecionados, destacando a tendência de procedimentos menos invasivos em determinadas situações.
Antes de aceitar uma cirurgia, vale alinhar com o oftalmologista:
- Qual é o tipo de glaucoma (ângulo aberto, ângulo fechado, secundário)?
- Qual foi a evidência de piora: pressão, campo visual, OCT, nervo óptico, ou combinação?
- Qual é a meta de pressão e por que ela foi escolhida?
- Quais alternativas ainda existem (ajustes de colírios, SLT, combinação com catarata, técnicas menos invasivas quando aplicáveis)?
- Quais são os riscos mais relevantes para o seu perfil (inflamação, infecção, hipotonia, necessidade de reoperação)?
Sinais de alerta: quando não esperar
Procure avaliação imediata se houver dor ocular intensa, olho muito vermelho com náuseas/vômitos, ou piora visual súbita importante. Esses quadros podem exigir atendimento urgente e não devem ser tratados como dúvida de rotina.
Onde a segunda opinião médica ajuda de verdade no glaucoma
Uma segunda opinião médica é especialmente útil quando a decisão envolve laser ou cirurgia, ou quando há divergência entre sintomas e exames. Ela não é para “desautorizar” seu médico: é para ganhar clareza.
Na prática, um segundo parecer pode ajudar a:
- confirmar se houve progressão real (comparando exames seriados);
- checar se o tipo de glaucoma foi bem classificado (isso muda o tratamento);
- revisar se a meta de pressão está adequada ao seu estágio;
- entender prós e contras entre laser, cirurgia e ajustes clínicos;
- organizar perguntas e expectativas antes do procedimento.
Se você quiser se preparar, leve/mande: medidas de pressão ao longo do tempo, paquimetria (espessura corneana), OCT, campos visuais com datas, fotos do nervo óptico, lista de colírios já usados e o que aconteceu com cada um.
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia reforça a importância de informação qualificada e acompanhamento com especialista, e divulga ações educativas voltadas ao tema (veja comunicado do CBO sobre orientações em glaucoma).
No fim, tratamento do glaucoma é um plano contínuo: revisar exames, ajustar metas e escolher a próxima etapa com base em evidências e no seu contexto. Se a recomendação foi laser ou cirurgia e você ainda está inseguro, uma segunda opinião pode ser o caminho mais objetivo para decidir com mais segurança.
Quer mais segurança antes de decidir o próximo passo?
Reúna seus exames e histórico de colírios para obter um segundo parecer e entender alternativas e riscos com mais clareza.
Fontes
- Ministério da Saúde / Conitec — PCDT Resumido de Glaucoma (PDF) — Base brasileira de diretrizes e organização do cuidado no SUS para glaucoma.
- Ministério da Saúde — Incorporação de técnica para glaucoma e catarata no SUS (2026) — Atualização recente sobre oferta/tecnologias cirúrgicas no SUS relacionadas a glaucoma.
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — ação/teleorientação sobre glaucoma — Fonte brasileira com orientação pública e contexto educativo sobre glaucoma.
- American Academy of Ophthalmology — EyeWiki: Primary Open-Angle Glaucoma — Referência internacional com visão geral de manejo e princípios do tratamento.